Roberto Carlos escreveu: "Por isto uma força me leva a cantar / Por isto esta força estranha no ar / Por isto é que eu canto, não posso parar". Independente do que se escreve, crônica ou conto, o mais curioso de tudo é que existe uma força realmente estranha agindo sobre o cara que está com a caneta na mão. Não acho que seja apenas gosto por escrever. É uma necessidade de traduzir, em palavras, sensações e pensamentos. É, uma necessidade. Infelizmente não é como respirar, que são apenas impulsos cerebrais. Exige trabalho. Muito trabalho. E eu sou meio preguiçoso. É muito mais fácil ligar a televisão do que forçar a cabeça a construir frases com sentido. É mais fácil entrar no MSN e falar besteira do que tentar ordenar os pensamentos para ser compreendido. O resultado disto é que ultimamente tenho passado muito tempo sem escrever. Nem um rascunho. Ou pelo menos nenhum rascunho que não me cause nojo no dia seguinte. Alguns textos do blog (me perdoem por tê-los publicado) são frutos de uma idéia fraca; são textos que surgiram através de um desenvolvimento pobre e trabalhoso, e que me deram um prazer que pareceu imenso na hora em que ficou pronto. Mas no dia seguinte… Prazer momentâneo… Não pensar da mesma forma no dia seguinte… Falando assim me lembrei de uma coisa chamada… Como é mesmo o nome? Sexo, eu acho. Se a memória não me trai, já houve casos em que conheci uma pessoa e por alguns instantes tive a impressão de que nos daríamos muito bem na cama. Nestas horas o sangue ferve e não consigo prestar muita atenção ao que minha intuição diz, e acabo convidando a pessoa para seis horas de prazer. "Mas na hora da cama nada ficou direito, é minha cara a falar: ‘não sou proveito, sou pura fama’" (Caetano Veloso) Na hora H a gente começa a perceber que a coisa não está fluindo cem por cento. A cabeça não viaja tão longe… O máximo que a minha chega é até minha casa, preocupada: “como será que está meu computador, longe de mim, sozinho?” Ou pior: “como será que está meu computador, longe de mim, nas mãos do meu irmão mais novo?” Os aspectos naturais do sexo, como gosto, cheiro e textura começam a ficar incômodos, e aí vem a idéia do banho. O banho é uma tentativa de se limpar de todos os pensamentos externos e de forçar uma intimidade que não existe. Acontece tanto no sexo quanto na escrita. Quantas vezes já pensei que o texto não fluía simplesmente porque eu não estava cheirosinho? Mas não é nada disso. Quando não houve o brilho no olhar, seja no primeiro beijo ou no momento exato da inspiração, penso que não adianta ir além dali. A não ser que haja muita imaginação. Se for para escrever, só pegando a idéia por um terceiro braço ou uma quarta perna, que ninguém mais consegue perceber. Na cama é um pouco mais complicado. Às vezes (só às vezes) eu queria ser normal. Agir, por exemplo numa festa, como a maioria das pessoas: dançar, fazer amizades e queimar calorias (iria suar e me sujar, também, mas nada é perfeito). Mas não. Fico procurando cabelo em ovo. Parado num canto, encostado em algum lugar tentando ver a tal da quarta perna, só porque preciso traduzir em palavras tudo o que vejo. Enquanto a maioria dos rapazes consegue enlouquecer simplesmente com um par de peitos, hoje em dia eu preciso de uma boa conversa para achar que vai valer a pena sair do meu conforto caseiro para o teste das seis horas. Mas sempre que me sinto meio triste por isso, me lembro de Raul Seixas: "O prato mais caro do melhor banquete é o que se come cabeça de gente que pensa / E os canibais de cabeça descobrem aqueles que pensam / Porque quem pensa, pensa melhor parado. / Desculpe minha pressa, fingindo atrasado / Trabalho em cartório mas sou escritor" (Metrô Linha 743)
04
Nov
09
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Escrever é como um cacoete, você concentra em não fazer, mas quando percebe, já está fazendo. Tentando traduzir tudo em palavras…
A Juliana Calvo que me indicou o seu blog. Vim, li e gostei. Vai pros meus links.
Acho que todo processo criativo é difícil. Não sou, nem pretendo ser escritora, mas quando preciso criar qualquer coisa é meio que um sofrimento…
Explicar isso de um jeito tão prático é uma característica forte no senhor! Esse texto está menos descritivo, e mais comparativo. Gostei desse caminho. Mas não perca a “mania” de observar, ou tentar achar a “quarta perna”, tampouco a outra de ser descritivo. Isso sempre resulta em TEXTOS, e é bom, porque acho que no fundo escrever é como tirar fotos em máquina digital. Você tira centenas de fotos e aproveita as melhores!O seu senso crítico pode dizer que está uma merda, e pode ser que esteja mesmo, mas outros leitores podem gostar! Não esquece do Paulo Coelho, podre de rico…os textos dele nem são lá grandes coisas, mas tem gente que compra!!
Keep writing!
Abraço!