A gente cresceu ouvindo que quem brinca com fogo mija na cama. E quem brincava com água? Será que se queimava enquanto dormia? Ou tinha pesadelos com Freddy Krueger, que morreu queimado (e causava pesadelos horríveis)? Depois de grande a gente descobre que, na verdade, quem brinca com fogo normalmente se queima (até porque mijar na cama se torna raro, na vida adulta) e quem brinca com água… A água é quase inofensiva. O máximo que pode acontecer é você acordar de madrugada para eliminar o que a pele absorveu durante a brincadeira. Não acredita que a pele absorva água? Não sei, mas me lembro de um dia da infância em que estávamos, duas primas e eu, nos preparando para ir à praia. Uma delas me perguntou: - O que você quer que a gente leve para você? - Biscoito recheado. - E água? - Não. - A gente não vai comprar nada lá, tá? - Não precisa; não fico com sede na praia. Minha pele absorve a água do mar. Relembrando a cena, percebo que naquele dia, com cerca de oito anos de idade, eu devo ter falado da mesma forma que escrevi aqui: com ponto-e-vírgula e usando a palavra ‘absorve’. Uma das poucas características da infância que não perdi: o exibicionismo. A imaginação, que criava teorias como esta, está se perdendo à medida em que preciso me adaptar ao mundo real. Mas voltando, era mais ou menos isso. Eu não sentia sede na praia. Será que a pele absorvia água, mesmo? Espero que não, porque naquele dia eu fui à Praia do Flamengo, e ela já não era muito limpa… Voltando mais ainda, as mães falam tantas besteiras, não é? Graças a Deus não conheço ninguém que tenha seguido tudo o que a mãe ensinou. Devem ser pessoas chatíssimas. Mudando só um pouco de assunto, chato também é ver o sucesso que faz o blog de Aguinaldo Silva. Se eu fosse um pouco mais influenciável, diria que sinto inveja, mas não é isso. Pelo menos não só isso. Vocês já foram ver o blog do cara? Não sei se torço para que a resposta seja sim ou não… Acho que não gostaria de dividir público com ele. São dois estilos COMPLETAMENTE diferentes. Tentar ler as últimas postagens, não dá. A menina só fala das noites de autógrafo de Deu no Blogão. Até aí, entendo. Talvez seja azar meu, mas a cada postagem antiga que leio, escolhida aleatoriamente, só vejo informações sobre a série que ele está escrevendo, a novela que está fazendo o maior sucesso, o galã que vai interpretar o polêmico papel de gay… E o resto do universo? Será que tudo que interessa se resume a vinte e quatro horas da programação de uma emissora de televisão? Quando falo em universo, não estou falando da busca por outros planetas ou nomes de constelações. Tem a camada de ozônio, os continentes em movimento, países em guerra, Brasília, a violência no Rio… E, com toda a sensibilidade que ela deve ter, poderia escrever sobre pessoas. Os pontos fracos das pessoas, as mudanças pelas quais elas passam a cada dia, as confusões em família, a incapacidade de elas entenderem qualquer coisa além delas, quando não conseguem entender elas mesmas… Tantas coisas… Mas o que interessa é Viver a Vida (é ele quem escreve isto? Não importa; novelas são tudo a mesma porcaria, sempre). Viver a vida dos outros, claro. Aquelas vidas do Leblon, em casas onde ninguém tranca a porta de casa, onde todo mundo fala o Português de acordo com a norma culta…
08
Nov
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Texto interessante. Boa construção.
Escrever sobre pessoas reais não é tão fácil quanto parece, a pra alguns as novelas acabam aproximando o mundo real do mundo desejado por estes. Mesmo sendo o universo da minoria!
O comentário de leitora é que não vi a sua cara nesse texto. Ele está divertido e irônico(como você), mas está diferente. Tem um quê de inocência e simplicidade no modo de escrever quase adolescente, e diria que não está nada exibicionista!Me lembrou o texto de uma aluna minha do ensino médio, a Lara, ela escreve narrativas maravilhosamente bem, e de um jeito muito particular! Eu gostei muito!
Como “futura profissional das letras”, acho que poderia ter desenvolvido mais alguns assuntos que iniciou em parágrafos específicos. Mesmo assim poderia ser publicado como “fast crônica”, e faria muito sucesso! Acabo misturando mesmo a leitora, com a professora, mas não faz mal, não é??
Fico feliz que tenha voltado à fase boa de criação!!
Vida longa a inspiração!!
Abraço!