
Eu morava num destes conjuntos habitacionais novos, coisas do PAC, e tal. Eram uns prédios MUITO vagabundos, mas eram melhores do que a favela.
Os blocos eram coladinhos uns nos outros, uma merda (mas, repito, eram melhores do que a favela). E foi assim que eu conheci a ———–.
Porque pobre cisma de botar esse tipo de nome nos filhos? Será que eles entendem mal o sentido de ‘perpetuação da espécie’?
Mas, então, a ———– morava no bloco em frente ao meu. Sua janela ficava de frente para a minha, quase colada na minha. Repito, os apartamentos eram uma merda, pequenos, apertados, colados uns nos outros, mas eram melhores do que a favela. Até porque, quando a gente morava na favela, ela morava do outro lado, a gente entrava e saía da comunidade por lugares diferentes. Não temos NADA a ver um com o outro, não frequentávamos os mesmo lugares, e nunca íamos nos encontrar!
Mas, então, cá, nos prédios colados, a distância que havia entre as nossas janelas era coisa de… 3 metros, se tanto. Quase dava para a gente segurar a mão um do outro, cada um em seu apartamento, de tão colado que era.
Lembro como se tivesse acontecido agora: era uma tarde de domingo, e na TV Globo passava um jogo de futebol. Estava no intervalo entre o primeiro e o segundo tempo e eu fui até a janela fumar um cigarro.
De lá de casa, a única vista que se tem da janela é a sala dela, Quando cheguei na janela a única coisa que tinha para olhar era a TV da sala dela e ela também estava assistindo o jogo.
A TV dela ficava de frente para a janela, então eu conseguia assistir perfeitamente. Da menina, eu só via a parte de trás do cabelo, preto, encaracolado. Ainda estava molhado, e parecia que ela recém tinha saído do banho.
Era tão perto que eu conseguia sentir o cheiro do creme que ela usava no cabelo.
Era o cheiro ruim de creme barato para cabelo ruim, aquele com cheiro enjoativo, sabe? Pois é. Mas fiquei ali, detonando meu pulmão: cigarro, pó de cimento da obra, poluição do Rio e a química do cabelo dela.
Ela estava pintando as unhas dos pés e quando passou a reprise dos gols do primeiro tempo, eu vi que ela vibrou, como se o gol tivesse acontecido naquela hora. Ela era dessas. Burra demais, coitada. Mas como era bonita! Compensava!
Quando ela se deu conta de tinha comemorado a reprise, instintivamente olhou para trás, para ver se alguém tinha visto o vexame. Eu tinha, e não consegui evitar o sorriso. Aparentemente um sorriso. Por dentro eu estava gargalhando. Ela retribuiu o sorriso, e eu disse:
- Acontece!
Ela fez uma expressão de “comigo acontece tudo”. E devia acontecer, mesmo. Perguntei:
- Lá, onde você morava?
Esta era uma pergunta comum entre os novos moradores do conjunto. Quem ainda não se conhecia, perguntava para saber em que parte da comunidade morava o novo vizinho. Foi então que ela disse o nome da área.
- Era longe de mim, mas… Que bom que a gente agora é vizinho!
Pode parecer que este diálogo foi feito por gritos, já que pobres gostam de ficar gritando pela janela. Mas não, a gente falava usando um tom de voz normal. E um ouvia o outro perfeitamente. Estou falando, os blocos era MUITO juntos. Mas, melhores do que a favela.
Ali, pela janela, a gente conversou bastante. O jogo começou e a conversa continuou. Agora ela estava ajoelhada no sofá, de costas para a TV e de frente para mim, e eu olhando para ela e, de relance, para a TV.
Perguntei se ela não queria descer, para a gente conversar melhor. Ela disse que, naquela hora, daquele jeito estava bom. Foi minha primeira lata [N.T.: recusa amorosa]. Tomei várias dela.
No fim do jogo ela recebeu um telefonema e paramos de conversar. Ela se arrumou, saiu e eu fiquei em casa, com tédio e ciúme.
2
No dia seguinte, segunda-feira, quando cheguei em casa, passei pela janela e ela estava novamente vendo TV. Fiz um ‘psiu’ e convidei-a para descer. A gente conversou durante um bom tempo. Apesar de burra, ela era engraçada, então valia a pena o tempo investido.
Em vários momentos eu tentei aproximar nossas bocas, mas ela sempre recuava. Tarde da noite, quando nos despedimos, nos beijamos pela primeira vez, na porta do apartamento dela. Só um selinho e um “boa noite”.
Quando eu ia saindo ela perguntou:
- Que horas você sai de casa para trabalhar? Dá tempo de você passar aqui amanhã para me dizer bom dia?
- Me chama que eu venho.
Terça-feira a mãe dela saía de manhã para fazer faxina, e ela me chamou pela janela. Cheguei lá e ela estava vestia uma blusa/quase-vestido e calcinha. Só. Me levou até seu quarto e trancou a porta. Nos abraçamos e começamos a nos beijar.
Ela era bem objetiva. Sabia o que queria e sabia como fazer.
- continua - ou não -

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