Por Airton

Uma história começa começando, pelo começo. E essa começa assim:

O ano era 2000. O lugar, o Instituto de Educação do Rio de Janeiro (IERJ).

O IERJ tinha sido, durante muito tempo, uma escola para normalistas. Mesmo já sendo uma escola regular, ainda havia muito mais meninas do que rapazes. E em fevereiro de 2000 começaram as aulas do primeiro ano do segundo grau, e lá estava Johnny, feliz por ter tantas mulheres à sua volta. Agora ele poderia testar a técnica de Don Juan que por tanto tempo ele tinha treinado na frente do espelho.

O primeiro dia de aula começou com o diretor, no auditório, apresentando a escola aos calouros. Depois cada turma foi para sua sala e Johnny teve mais dois tempos de Geografia, com aquela professora velha com o cabelo esquisito, que usou a aula para que os alunos se conhecesssem, falando nome, idade, estas coisas. Johnny viu algumas meninas bonitas na sala, tentou gravar os nomes daquelas que pareciam mais interessantes, mas sabia que aquelas seriam mais complicadas. Muito contato podia ser prejudicial. O que mais interessava a ele eram as alunas das outras salas e, mais ainda, das outras séries.

Quando chegou a hora do recreio, ele e seus colegas tremeram um pouco, porque sabiam que levariam trote dos veteranos do terceiro ano. Com Johnny não foi diferente. Tinha sido cercado por algumas alunas do terceiro ano, e ia ser pintado com batom, quando apareceu o Robertinho, que era seu colega de infância.

- Não, esse aqui não leva trote. Esse é o meu amigo, Johnny Capado!

"Não, Robertinho, não precisava dizer o apelido! Vai me queimar!", pensou Johhny. Agora a idéia de ser pintado já não era tão ruim. Mas as meninas começaram a rir, e desistiram de pintar:

- Johnny o quê? CA-PA-DO?

Algumas mais atiradinhas foram apalpar Johnny para conferir. Ele rebolou de cá, gingou de lá, afastou algumas mãos das meninas e saiu correndo para o banheiro.

Quando chegou lá:

- Merda, merda, merda! Porra, por que Robertinho aparecer agora e falar isso! Caralho… E eu, também, piorando tudo! Correr para o banheiro? Porra, que coisa idiota! Eu devia ter dito "capado nada, confere aqui", em vez de correr como galinha.
"Mas ainda dá pra fazer isso. Virar o jogo! Sair de vítima para pré-garanhão! É exatamente isso que as meninas desta escola precisam, e é isso que eu vou dar pra elas."
"Virar o jogo. É o jeito. E tenho que começar agora. Coragem."
"Eu não vou conseguir. Nunca fiz isso. Nem sei fazer. Mas tenho que fazer. E não posso perder mais tempo."

Saiu do banheiro, barriga para dentro, peito para fora. Como queria, encontrou com as veteranas. Natalia, uma das meninas que tinha tentado apertar Johnny, provocou:

- E aí, Capado, foi ver se cresceu alguma coisa?

Todas riram e ele respondeu:

- Fui, mas não consegui ver. Quer ver pra mim?

Todo mundo parou de rir. As colegas olharam espantadas para Natalia, que não soube o que dizer. Johnny soube:

- Bom, se nenhuma de vocês tem coragem… Vou tentar com alguma do ginásio. Tchau, foi um prazer conhecer vocês.

Virou as costas para elas e saiu. Natália, que era responsável por tudo aqulo, foi atrás e puxou o braço dele:

- Calma, calouro! Qual sua idade?
– 15.
– Que pena… Muito novinho…
– Você devia saber que essa é a idade do primeiro ano.
– Grossinho, você, hein?
– …
– Mas eu gosto disso!

E ‘pá’, Johnny pegou uma aluna do terceiro ano no primeiro dia de aula.

Começando tão bem, ninguém nunca mais lembrou que ele tinha aquele apelido.


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