Eram os primeiros dias do ano letivo, e ainda não havia aulas, exatamente. Os professores ainda estavam se apresentando para as turmas e pediam para que cada aluno se apresentasse, também. As cadeiras estavam arrumadas em círculo, para que todos pudessem ver todos.
Na cadeira ao lado da professora sentou-se uma menina. O que chamou a atenção de Johnny foi o elástico rosa que ela usava para prender o cabelo em rabo-de-cavalo. Enquanto a moda era o prendedor em forma de bico-de-pato, aquela menina usava um acessório diferente, original. Talvez tenha sido este detalhe simples que prendeu o olhar de Johnny. Ele analisou bem sua nova colega de turma.
Ela não era aquele tipo de mulher que, quando passa na rua, todos param para olhar. Tinha a pele bem branca, com o rosto arredondado, um pouco redondo demais, e marcado de pintas vermelhas. Espinhas. Muitas. Os hormônios da adolescência estavam sendo cruéis com ela. “Comigo também”, Johnny pensou.
A blusa do uniforme da menina estava com todos os botões fechados, o que indicava que ela não era uma das safadinhas da escola. Pelo menos não declaradamente. Em vez da tradicional e sensual saia colegial, ela usava calça comprida, mas não colada, como as outras. A calça só marcava, mesmo, o quadril, deixando o resto do trabalho para a imaginação de Johnny, que começou a perceber que por baixo daquele uniforme comportado havia um corpo bem atraente!
Completando o conjunto, em comum com 90% das alunas, ela calçava sapatilha de boneca, e isso não ajudava Johnny a definir quem era aquela menina que tinha chamado tanto sua atenção. Enquanto ele pensava nisso, chegou a vez dela de se apresentar:
- Oi, eu sou Alexandra e tenho 15 anos, como a maioria aqui, né? E eu também sou nova na escola, igual todo mundo. E para diferenciar… Quando eu crescer eu quero ser… Pintora!
Enquanto os colegas riam da profissão que ela escolheu, Johnny olhou para as mãos dela. Pareciam mãos macias e delicadas, ideal para quem quer usá-las para criar arte ou fazer carinho. Imediatamente Johnny começou a imaginar como seria se eles namorassem. Em poucos segundos imaginou vários momentos entre os dois. Seu olhar se perdeu no chão da sala, enquanto sua imaginação voava pelas calçadas em volta da escola, onde eles dois passeariam juntos, de mãos dadas…
Às vezes ele olhava para Alexandra, para conseguir imaginar melhor as cenas com os dois. Beijos delicados e carinhosos enquanto andavam… Chegou a pensar se ela teria coragem de aproveitar o sinal fechado em frente à escola para se beijarem na faixa de pedestres. Será que ela gostaria desta mistura de exibição e adrenalina? Levantou o olhar e procurou a resposta nos olhos castanhos dela. Ela estava olhando para ele! Ele desviou o olhar e correu os olhos pela roda de colegas, para saber se alguém tinha percebido, e descobriu que todos estavam olhando para ele. “Será que eu pensei alto e acabei falando alguma coisa?” Então ele olhou para a professora, que também estava olhando para ele. Ela repetiu o que tinha acabado de dizer:
- Agora é a sua vez de falar, meu filho. Tudo bem com você?
- Desculpa, professora. Eu tava pensando no que a colega… Alexandra falou. Sobre ser pintora. Acabei de descobrir o quê quero ser quando crescer: quero ser modelo para a pintora Alexandra!
Alguns alunos assoviaram ‘fiu-fiu’, outros gargalharam, e quase todos, inclusive Johnny, sorriram. Alexandra foi a única que não sorriu, tímida e surpresa, com o rosto mais vermelho do que o normal. A professora olhava para ele e para ela, esperando alguma explicação. Johnny piscou um olho para Alexandra e completou, para a professora:
- Não, não, tô brincando, mas eu acho artes plásticas muito legal. Queria ter talento para isso. Pintar, desenhar, esculpir… Mas… Acho que vou acabar sendo professor, mesmo.
Johnny sorriu, achando graça de sua resposta. Achava que tinha se saído bem. Realmente queria ser professor e em vez de simplesmente dizer isso, deu uma indireta para Alexandra. Estava tão preocupado com essa tarefa que não percebeu que valorizando Alexandra, desvalorizou a profissão da professora. Só percebeu isso quando notou o olhar furioso e ofendido da professora. Quando percebeu, e entendeu a besteira que tinha feito, não se preocupou. Ele conseguiria passar de ano, mesmo que a professora não gostasse dele. O que realmente importava naquele momento era preparar o terreno, lançar as primeiras sementes.
Letra: Every Rose has it’s thorns




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