Ela acordou e disse: hoje vai ser um dia DAQUELES.
Tomou banho, vestiu o uniforme e foi para o trabalho.
No caminho, tudo parecia normal. Exceto pela sensação muito pessoal que ela trazia dentro de si.
Esta sensação, esta camada de poeira era relevante. A ansiedade e a tensão eram como pó ácido pairando sobre seus nervos. E seus neurônios. A corrosão acontecia o tempo todo.
Cada dia, todo dia, o dia todo, sem parar, corroía. Como um sábado e um domingo de chuva, sabe, bem chato? Só que nela era chuva ácida, todos os dias da semana, sem folga, férias ou feriado.
Mas, estava ela indo trabalhar. No ônibus, ali, tudo tão normal quanto podia ser.
De repente, um ponto antes de onde costumava descer, ela percebeu que o tráfego estava mais lento. Olhou pela janela e viu AQUELA fila de gente: "é, fudeu".
Mas, vamos que vamos. Ela já desce por ali, com o ônibus parado no engarrafamento. Se encosta na parede, fugindo das outras pessoas que passam apressadas. Respira fundo, pega um cigarro na bolsa, procura o isqueiro, acende o cigarro e apressa seu processo de morte.
E vai andando e fumando. Como um boi indo para o abate.
Como ia fumando, podemos dizer que vai andando como um Dragão-de-Komodo
E vai vendo a fila, e respirando, bufando, baforando.
A história terminava aqui. A continuação é:
Chegou no seu trabalho e começou a repetição:
"Empresa X, Fulana, bom dia. Qual é o seu nome, por favor?"
Durante as seis horas aquele headset pesava muito. A cabeça doía, mesmo, no fim do dia.
Saía do prédio onde trabalhava e ia para o ponto de ônibus, cabisbaixa, quando sentiu um alívio súbito!
Sua cabeça parou de doer. A bolsa não pesava no ombro. A calça não estava apertada, assim como os sapatos. Ela se sentiu… Leve.
Era uma pluma, apenas, sendo carregada pela brisa calma…
E o vento levou… Esta pluma até a porta de um bar. Que vento matreiro! Ela entrou no bar e pediu uma cerveja. Precisava beber algum líquido para tomar seu comprimido de aspirina. A cabeça não doía mais, mas uma aspirina depois do trabalho era sempre bom.
A Brahma estava geladíssima. Perfeita para aquele calor. Do seu lado, no balcão, encostou um rapaz pedindo um maço de cigarros. Era estranho uma mulher, ali, encostada no balcão bebendo uma cerveja, sozinha, e ele olhou para ela. Seus olhares se cruzaram. Não como num filme, não. Como na vida real, no cotidiano, mesmo.
Seus olhos se encontraram e… Ambos ficaram desconcertados. Ela olhou para baixo, muito interessada no joelho e na coxinha, e ele olhou para a frente, de repente confuso sobre qual cigarro fumava todos os dias. Ele conseguiu lembrar, fez a troca dinheiro-produto e ela já olhava fingidamente distraída para a rua.
Ele saiu do bar e sabia que estava no campo de visão dela. Sabia que ela estava olhando para sua bunda, numa inversão de papéis.
Ele demorou e fez charme para acender o cigarro. Tragou fundo (o equivalente a ‘respirou fundo’, para um fumante), criou coragem e foi falar com ela:
- Oi, eu… posso te acompanhar nesta cerveja e a gente divide a conta? É que beber sozinho pode ser meio chato… E eu também…
– Tá, tudo bem, essa tá paga, já. Beber sozinha é chato mesmo!
– Obrigado. Você trabalha aqui na … , né?
– Como…
– Não, não, não fica assustada! É só que você esqueceu de tirar o crachá!
– Ah [risos], isso, claro! Puxa, eu levei um susto, agora!
– Não, moça, calma… Eu só quero ser e fazer companhia para esta cerveja!
– Sim, desculpa, mas hoje em dia…
– Tudo bem. Eu li no seu crachá que seu nome é…
– [risos] Isso mesmo. E o seu?
– … Eu trabalho aqui perto, também. E também acho que uma cerveja é uma ótima bebida para o fim do dia. De vez em quando você também faz isso?
– Não, é a primeira vez. Agora há pouco eu tive uma sensação estranha… Me senti tão bem que… Quando vi, tava aqui, na porta do bar, meio perdida… Aí eu pedi uma cerveja e logo depois você apareceu.
– Olha que curioso! E eu estou procurando cigarro faz três quarteirões! Só achei aqui! Daí te vi e… E achei interessante tomar ‘meia’ cerveja! [risos]
Continua. Ou não.
Idiota = Pretensioso, afetado.




